Evento em Berlim trata das mudanças na profissão acadêmica

Seminário realizado pelo International Center for Higher Education Research, da Universidade de Kassel, na Alemanha (INCHER-Kassel),  “Changing Conditions and Changing Approaches of Academic Work” reuniu mais de 200 pesquisadores de diferentes partes do mundo para discutir os resultados de pesquisa voltadas para o estudo dos valores, atitudes, padrões de recrutamento e carreira desse que é um dos atores-chave do ensino superior: o professor universitário. O seminário foi patrocinado pelo Ministério de Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF). O foco foi o debate dos resultados obtidos por duas redes internacionais de pesquisa:

- A Rede Internacional “The Changing Academic Profession” (CAP), responsável pela organização da maior base de dados sobre a profissão acadêmica até hoje produzida no mundo, sobre as condições de trabalho, contrato, inserção profissional, internacionalização, atividades de ensino e pesquisa, bem como atitudes e opiniões de mais de 25.000 professores universitários, em amostras representativas da realidade acadêmica de 19 países. Entre os países representados nesse banco estão Canadá, México, Argentina, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Noruega, Portugal, Itália, Finlândia, África do Sul, China, Hong Kong, Malásia, Japão e Coreia do Sul. O Brasil participa dessa rede mediante o apoio da Fapesp.

- O consórcio responsável pela realização do survey “The Academic Profession in Europe (EUROAC)”, realizado em 12 países da Europa.

A Conferência incluiu também resultados de um survey coordenado pelo Centro INCHER-Kassel que analisa em profundidade as mudanças ocorridas nos últimos 10 anos no ensino superior alemão, especialmente nas atividades ligadas ao ensino e à pesquisa e o impacto das mudanças introduzidas no ensino superior daquele país com a implementação dos acordos de Bolonha. Finalmente, a Conferência abriu espaço para a apresentação de um conjunto de estudos recentes realizados na Grécia, Espanha e alguns países do leste europeu, que buscam avaliar o impacto da crise européia sobre o ensino superior e, particularmente, sobre as condições de trabalho dos professores universitários dos países mais afetados pela atual crise.

Participamos, do Brasil, eu e Simon Schwartzman (IETS, Rio de Janeiro), na qualidade de diretores da Pesquisa CAP-Brasil. Eu apresentei o trabalho intitulado “The Latin-American university model and the challenges posed by the new reforms: perspectives from the academics”. O trabalho analisa a hipótese de que a profissão acadêmica na realidade latino-americana está fragmentada em perfis profissionais contrastantes, que sustentam valores e atitudes divergentes e até opostas. Essa fragmentação explica, em parte, a longevidade de modelos relativamente arcaicos de governança universitária no nosso continente, em particular, modelos que ampliam a autonomia das subunidades acadêmicas no interior das universidades, uma vez que ele facilita o insulamento mútuo de grupos acadêmicos que sustentam valores opostos. Simon participou da mesa de encerramento da Conferência e, em sua fala, apontou para a necessidade de se produzir novos modelos teóricos que dêem conta das mudanças que estão sendo produzidas pelo processo de massificação do acesso ao ensino superior.

Na sessão de trabalhos internos do Consórcio CAP, realizada na parte da tarde do dia 6 de junho, lançou-se a proposta, amplamente apoiada por todos os participantes da rede presentes, para a realização do próximo encontro dos pesquisadores ligados à rede na Unicamp, no segundo semestre de 2013.

* Elizabeth Balbachevsky é pesquisadora do CEAv/Unicamp e da FFLCH/USP

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Um milionário oásis da ciência e a novidade das universidades privadas em Jedá

Há inúmeras contradições na sociedade saudita, e um sistema universitário em formação, que mistura riqueza com uma sociedade ultra-conservadora, com fanatismo religioso, e com um grupo crescente de pessoas com pensamento progressista e excelente formação. Todos os ingredientes estão dados para um caldeirão complexo e imprevisível

Penúltimo dia

Após a conferência de Riad, segui para outra grande cidade da Arábia Saudita, Jedá. Na segunda feira, dia 23 de abril, fui convidado pela Suzana Nunes, ex-professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e atualmente professora na King Abdullah University of Science and Technology (KAUST), para essa interessante visita. A KAUST fica a 100 km de Jedá. Na realidade ela me convidou no dia anterior, assim pude também experimentar o hotel (Kaust Inn), e as impressionantes coisas que eles têm ali.

Jedá

Jedá

Em termos gerais, trata-se de um enorme oásis científico no meio do deserto, onde o Rei Abdullah decidiu montar uma instituição de pesquisa de ponta, buscando atrair talentos científicos. Para construir o campus, aparentemente ele destinou uma verba de 10 bilhões de dólares, o que pode dar uma ideia das construções que existem ali.

Não há cursos de graduação, apenas pós-graduação, e a ideia é que eles consigam atrair os melhores estudantes e professores do mundo todo ali, atraídos pela possibilidade de ter verba e equipamentos que seriam muito difíceis de obter em outros lugares.

Além disso, ao juntar tantos talentos, espera-se que novos avanços multidisciplinares possam ocorrer. O campus começou a operar de fato apenas em 2009, e portanto ainda tem um número muito pequeno de estudantes formados. Os atuais – aproximadamente 800 estudantes – moram todos ali em muito boas residências. Todos os professores e funcionários também moram ali, e o lugar tem diferentes bairros, supermercado, posto, lojinhas etc.

Formou-se uma comunidade de em torno de 4.000 mil pessoas, que residem ali, dentro da Arábia Saudita, mas com regras próprias. Ali existe talvez o único cinema do Reino. Ali as mulheres podem andar sem abaya, e as classes são mistas, e podem ser ensinadas por homens ou mulheres. Parece bobagem, mas para a Arábia Saudita isso é um avanço impressionante (que não passou impune às criticas, naturalmente).

O choque já começou na minha chegada, quando no hotel, em lugar de um quarto na realidade eles me deram quase um apartamento, e com a geladeira abastecida! Tinha queijo, pão, manteiga, marmelada, sucos, água, entre outras coisas. Saí maravilhado para dar uma volta no centrinho, que está situado perto da mesquita principal. Tem ali lojas de conveniência, lojas de roupa, restaurantes, sorveteria, lojas de souvenirs etc.

Os prédios são bem agradáveis, e o local fica bem na beira do Mar Vermelho, o que proporciona uma vista toda especial. Há uma praia, e um barco, que toda semana oferece passeios, e aulas de mergulho, entre outras coisas. Criaram uma vila a partir do nada, e uma comunidade que precisa criar mecanismos de lazer para aguentar viver em um ambiente assim fechado.

Na manhã seguinte, além de algumas reuniões e conversa com a Susana, fui visitar o Core Lab, que tem como gerente, por pura coincidência, um velho amigo meu, Xixiang Zhang, com quem colaboro desde 1994. Foi um belo reencontro, e pude ver ali o que é possível fazer com muito dinheiro. O laboratório, que atende toda a Universidade, ocupa dois andares inteiros (deve ser algo em torno de 2.000 m²), onde foram gastos nada mais nada menos do que 140 milhões de dólares em equipamentos de pesquisa, isso sem contar com a câmara limpa, que custou outros 40 milhões.

Tem absolutamente de tudo o que se possa imaginar na área de pesquisa em química, física e propriedades de materiais. Vários microscópios, diversos tipos de espectroscopia, e tudo o que alguém da área de ciências de materiais sempre sonhou.

Na conversa posterior com os dirigentes dali, ficou claro que agora eles precisam atrair gente competente para ganhar massa crítica de pesquisa. O problema é consolidar um lugar que não tem a tradição e o atrativo de outros lugares (como EUA e Europa). Por enquanto eles estão apostando em bolsas mais atraentes em todos os níveis, bem como a possibilidade de um ambiente de trabalho único. Ronda ali a preocupação com o futuro, pois tudo na Arábia Saudita depende da vontade do rei, e o atual, bem progressista, está já com 88 anos. Tudo ali é um experimento, que nunca foi realizado anteriormente. Resta saber qual será o resultado. De qualquer modo, para quem está buscando algum lugar diferente para trabalhar, ou realizar a pós-graduação, sem dúvida é um lugar que deve ser considerado.

Último dia

Ainda em Jedá, fui visitar mais duas Universidades, desta vez privadas. A primeira delas, chamada Effat College, é uma experiência interessante de tentar introduzir o conceito de Liberal Art College, em uma sociedade tão estranha quanto a da Arábia Saudita. As estudantes têm ali um ano completo de educação geral e nivelamento, para aquelas que precisam reforçar principalmente o inglês, pois em ambas universidades o ensino é exclusivamente nesse idioma.

Em outro dia fui visitar o College of Business Administration (CBA), que tem um campus de homens e outro de mulheres. Para homens, eles têm engenharias, não disponíveis para mulheres, que se concentram nos cursos de administração, marketing e comunicação, entre outros. Ambas são universidades novas e ainda muito pequenas (menos de 1.500 estudantes cada), mas que aparentemente estão crescendo buscando um nicho diferenciado do mercado.

A ideia de universidade privada é nova na Arábia Saudita, elas existem há apenas doze anos. Além de todas serem em inglês, buscam atrair alunos que as famílias não querem viajando para realizar estudos no exterior, seja pela idade, pelo casamento, por motivos religiosos ou qualquer outro empecilho.

Em geral, famílias ricas tendem a mandar os filhos e filhas (desde que devidamente acompanhadas) à Europa ou EUA para fazer a universidade. Mas existe um mercado para os que não querem ou não podem sair. Em particular as mulheres têm que ir com alguém que as acompanhe (pai, irmão), o que nem sempre é possível. Além disso, o casamento ainda ocorre prematuramente ali, e as jovens com 16 ou 17 anos às vezes já se casam e logo têm filhos. Esse é o publico que essas universidades pretendem atingir.

Mas a sociedade ainda não está acostumada com Universidades privadas, porque aqui, nas universidades públicas todos os estudantes recebem uma bolsa (aproximadamente de R$ 500). Mas naturalmente as vagas são limitadas, e somente uma parcela muito pequena da população consegue entrar.

Não ficou claro se as universidades são com ou sem fins lucrativos. Eles afirmaram que não tem fins lucrativos, mas as duas instituições que visitei têm donos, que são conhecidos, o que me parece um contrassenso. É um setor que está claramente em franco desenvolvimento, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Há inúmeras contradições na sociedade saudita, e um sistema universitário em formação, que mistura riqueza com uma sociedade ultra-conservadora, com fanatismo religioso, e com um grupo crescente de pessoas com pensamento progressista e excelente formação. Todos os ingredientes estão dados para um caldeirão complexo e imprevisível.

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Um campus suntuoso como ‘prova do amor do rei saudita pelas mulheres de seu país’

3rd International Exhibition and Conference on Higher Education

Princess Nora bint Abdulrahman University

Na quinta-feira, dia 19 de abril, um grupo que participava da feira e da conferência de Educação Superior, na Arábia Saudita, foi convidado para visitar o novíssimo campus da Princess Nora bint Abdulrahman University.

Princess Nora bint Abdulrahman University

Grupo foi recebido com pompa e cerimônia pela administração da Universidade

Só foi possível essa visita pois a quinta-feira na Arábia Saudita é equivalente a um sábado, e portanto a Universidade estava sem alunas. Parece estranho, mas não seria possível realizar a visita em um dia de aula, pois os homens não poderiam entrar (em um ambiente fechado, as alunas tiram as abayas).

O grupo foi recebido com pompa e cerimônia pela administração da Universidade, que seguiu todos os rituais de suntuosidade bem comuns por aqui. O campus foi inaugurado recentemente, e é mesmo muito impressionante. São oito milhões de metros quadrados, com construções espetaculares, quadras esportivas, mesquitas, e tudo mais.

O mais impressionante é um metro-rail de extensão total de 14 km que circula por todo o campus, com 14 estações diferentes. Isso foi feito pois o campus é muito grande, e as mulheres na Arábia Saudita não podem dirigir.

Princess Nora bint Abdulrahman University

Visita foi numa quinta-feira, dia sem aulas

Durante a visita, um dos visitantes fez alguma brincadeira sobre a questão da segregação, e a imponência do local, dizendo que a Universidade seria melhor se estivesse mais concentrada. Uma funcionária da Universidade respondeu indignada que a grandiosidade era um indicador de quanto o Rei amava as mulheres de seu país.

Princess Nora bint Abdulrahman University

Metro-rail tem 14 km e 14 estações: as estudantes são proibidas de dirigir automóveis

Ou seja, essa expressão mostra um pouco a motivação para ter tanta preocupação com a grandeza e com a riqueza do local. De fato, a Universidade é enorme para o que ela é hoje (aproximadamente 25 mil estudantes), e mesmo para o que pretende ser (aproximadamente 50 mil estudantes). Mas deixo que as imagens falem por si só.

Princess Nora bint Abdulrahman University

Com 8 milhões de m², construções espetaculares, quadras esportivas e mesquitas, Universidade é enorme para o que é hoje (25 mil estudantes), e mesmo para o que pretende ser

 

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Segundo dia no 3rd IECHE

Segundo dia no 3rd IECHEO segundo dia foi repleto de atividades no IECHE. A programação era a seguinte:

Conference Program – Day 2
Wednesday, 18 April 2012
SESSION TIME (HRS) TOPIC/ACTIVITY
SESSION 3Changing Paradigm in Teaching and Learning: Case StudiesModerator:
Dr. Salim Al Malik
0900 – 0920
Problem-based Learning and Other Innovative Approaches to University Pedagogy
Eric Mazur, Area Dean of Applied Physics, Harvard University, USA
0920 – 0940
Franklin W. Olin College of Engineering
Richard K. Miller, President, Franklin W. Olin College of Engineering, USA
0940 – 1000
Dublin City University
Brian Macraith, President, Dublin City University, IRELAND
1000 – 1030
Open Forum
1030 – 1050 Coffee Break
1050 – 1110
Liberal Education as a Program of Study: Case of Lebanon
Hassan B. Diab, Minister of Higher Education, LEBANON
1110 – 1130
Liberal Education as Transition Program: Case of Brazil
Marcelo Knobel, Dean of Undergraudate Programs, University of Campinas, BRAZIL
1130 – 1150
Liberal Education and The Teaching University: Global Perspectives
Patti McGill Peterson, Sr. Associate, Institute for Higher Education Policies, USA
1150 – 1220 Open Forum
1220 – 1430 Lunch
SESSION 4Structuring Universities for Effective Teaching and LearningModerator:
Dr. Ellen Hazelkorn
1430 – 1450
System Level Experience: The California Master Plan
Philip Altbach, Director, Center for International Higher Education, Boston College, USA
1450 – 1510
National Level Experience: Canadian Universities
Feridun Hamdullahpur, President and Vice-Chancellor
University of Waterloo, CANADA
1510 – 1530
Institutional Level Experience: European Universities
Gudrun Paulsdottir, President, European Association of International Education, NETHERLANDS
1530 – 1545
RIYADH CONFERENCE STATEMENT ON WORLD CLASS TEACHING UNIVERSITIES
Salim Al Malik
General Director for International Affairs
Conference Supervisor / International Conference on Higher Education
MOHE, SAUDI ARABIA
1545 – 1600
CLOSING REMARKS
Steven Joyce
Minister of Tertiary Education, NEW ZEALAND
1600 – 1630 Open Forum
1630 Coffee Break

Na sessão da manhã, foi muito interessante a discussão sobre novos métodos de ensinar e aprender. O dia começou com o Eric Mazur, de Harvard, que mostrou as suas idéias sobre “peer instruction”, e o uso de clickers. Depois, o reitor do Olin College of Engineering, mostrou as incríveis novidades desta relativamente nova faculdade de engenharia, que vem com um conceito amplo e generalista de educação. Depois, o Reitor do City Dublin College mostrou diversas iniciativas que seguem essas mesmas tendências na engenharia.

A sessão que participei foi iniciada pelo Ministro da Educação do Líbano, que mostrou como eles estão introduzindo ali diversas iniciativas de “Liberal Arts Education”, e como isso é visto como um projeto de estado. Depois, foi a minha vez de apresentar a ideia do ProFIS como um programa de transição de um currículo tradicional, para uma educação geral. Finalmente, a Patti McGill Petterson, que atualmente preside o American Council of Education, e que acabou de lançar um livro sobre educação geral no mundo, traçou um panorama geral da importância da educação geral e dos desafios de sua implantação.

Após sermos recebidos pelo ministro de educação superior, que queria nos cumprimentar, a sessão da tarde seguiu bem interessante, com uma brilhante exposição do Phil Albach sobre a importância de ter um plano para a educação superior, e a importância crucial das universidades de ensino e aprendizado, e não as universidades de pesquisa, que estão no topo da pirâmide. Ter instituições que possam cobrir as diversas necessidades da população é fundamental para conseguir expandir o ensino superior com qualidade (fato que precisa ser feito tanto na Arábia Saudita quanto no Brasil).

Ouvimos também o reitor da Universidade de Waterloo no Canadá, bem como a Coordenadora da European Association of International Education. Finalmente, foi lido o manifesto de Riyadh sobre as universidades de ensino de qualidade, e o Workshop foi finalizado pelo Ministro de Educação Superior da Nova Zelândia.

Foi um dia completo, cheio de contatos e atividades. Amanhã visitarei uma nova Universidade só para mulheres. Vamos ver!

Leia também:

Revista Ensino Superior Unicamp | capa da edição impressa nº 5 | abril de 2012

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Choque de culturas

3rd International Exhibition and Conference on Higher Education

3rd International Exhibition and Conference on Higher Education, Riad, Arábia Saudita

O primeiro dia do International Exhibition and Conference on Higher Education, em Riad, capital da Arábia Saudita, terminou com uma situação inusitada.

Através da Liz Reisberg, que ajudou a organizar o evento, fiquei sabendo que os organizadores estavam desconfortáveis com a minha apresentação. Em particular, havia duas fotos em que apareciam os ombros das estudantes, e isso é completamente proibido por aqui.

Os organizadores são bastante abertos, mas o problema é que na plateia poderia haver alguém que não gostasse, e poderia reportar isso à polícia religiosa, o que seria um problema.

Como não queria causar um incidente diplomático, nem nenhuma complicação para o meu anfitrião, prontamente aceitei retirar a foto, que afinal de contas só ajudava a deixar a tela mais alegre. Eles se sentiram constrangidos, mas a verdade é que é um verdadeiro choque de culturas o tempo todo por aqui.

Bom, mas no final, quando estava apresentando, notei que as tais das fotos não tinham sido retiradas!! Por via das dúvidas não fiquei nem um segundo nesse slide.

Seria uma provocação!

E ainda bem que aconteceu isso, pois eu estava preparando uma apresentação genérica sobre o Brasil para apresentar no sábado em uma universidade só de mulheres, e tinha imaginado em colocar uma foto tradicional de uma escola de samba. Sabe-se lá o imbróglio que isso iria causar… Todo cuidado é pouco!

Leia também:

O 1º dia do IECHE

O 2º dia do IECHE

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3rd International Exhibition and Conference on Higher Education

Marcelo Knobel participa da 3ª edição da conferência em educação superior, organizada pelo Ministério de Educação Superior da Arábia Saudita, em Riyadh

Marcelo Knobel participa da 3ª edição da conferência organizada pelo Ministério de Educação Superior da Arábia Saudita, em Riyadh

Estou participando da 3ª edição da conferência em educação superior, organizada pelo Ministério de Educação Superior da Arábia Saudita, em Riad, que ocorre junto com uma gigantesca feira de universidades, onde participam mais de 450 instituições do mundo todo (ver http://www.ieche.com.sa/web/index.php?lang=en).

Além da experiência cultural que representa uma visita a um país tão diferente do nosso, esta participação permite entender melhor os desafios da educação superior em diferentes realidades. Aqui, por exemplo, o dinheiro não parece ser o problema, mas sim a questão cultural, onde só recentemente a educação superior tem sido considerada um fator fundamental para a sustentação e progresso da nação.

Além disso, há ainda, evidentemente, um longo caminho a ser percorrido no que se refere ao gênero, pois aqui há uma separação muito clara entre homens e mulheres. Há universidades e/ou campi destinados para homens, e outros para mulheres, e cada um tem um papel muito claro e separado.

Por exemplo, hoje o ministro anunciou que as mulheres agora poderão estudar ciências sociais. Isso nos impressiona muito, mas creio que eles estão aqui preparando o caminho para uma sociedade mais justa. Há ainda um longo caminho a percorrer.

O governo está investindo bastante nas universidades, e há um aumento considerável das mulheres que têm acesso à educação superior, fato que certamente terá consequências a médio e longo prazo.

A primeira sessão foi sobre a importância estratégica do ensino e aprendizado, com a seguinte programação:

  • Learning to Learn in Knowledge Economy
    Nigel Thrift, Vice Chancellor, Warwick University, UNITED KINGDOM
  • Educating Individuals for Personal Development and Social Responsibilities
    Shamsh Kassim Lakha, Founding President, Aga Khan University, PAKISTAN
  • Preparing Student for the Demands of Labour Market
    Jozef Ritzen, Former Maastrich University President, NETHERLANDS
  • Access and Equity: The Role of Teaching Universities
    Estela Mara Bensimon, Co-Director, Center for Urban Education,USC, USA

A sessão foi bem interessante, com diferentes perspectivas sobre questões de qualidade, mercado de trabalho e o perfil dos estudantes que formamos.

Mais discussões estão por vir. Tentarei manter todos informados…

Leia também:

Choque de culturas – Como um slide com alunas brasileiras quase gera um ‘incidente diplomático’

O segundo dia do IECHE, Riad, Arábia Saudita

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Going Global 2012 – British Council, 3º dia

O 3º dia teve, para o Brasil, um sabor especial: nada menos do que 5 brasileiros participaram de sessões. A mais interessante foi a que teve como tema as economias emergentes da América Latina, com Glaucius (CNPq) e Simon Schwartzman na mesa, além de uma representante do Ministério da Educação da Colômbia. Mas o Brasil e seu programa Ciência sem Fronteiras foram o foco das atenções, como aliás tem sido ao longo da conferência. O programa tem despertado enorme interesse das universidades aqui no Reino Unido, e certamente daquelas em outros países, por razões óbvias.

Glaucius fez a apresentação básica, com as metas e as bases do programa. Simon levantou pontos relevantes, incluindo um que ele gostaria de ver repensado: a ausência das áreas de Ciências Sociais, Humanidades e Artes na proposta. Glaucius respondeu que, apesar de essas áreas não estarem contempladas diretamente, bolsas do PCSF de outras áreas liberariam verbas do orçamento original do CNPq e Capes que estariam sendo direcionadas para essas áreas.

Mas creio que o tema deveria ser mais debatido, pois a decisão, que Glaucius colocou claramente como tendo vindo da própria Presidência, indica uma falta de relevância dessas áreas para o atual governo – no meu entender um erro. Para entender melhor por que penso assim, é preciso recorder que, na fase anterior de alta participação no exterior de estudantes de pós-graduação (até mais ou menos meados da década de 80), áreas como Educação, Sociologia, História, Artes e outras, não tiveram a mesma densidade que as das Ciências da Natureza, Matemática, Saúde, Engenharias. Assim, algumas delas nunca atingiram o nível de maturidade acadêmica a que Física, Matemática, Química, Biologia, Medicina, Engenharias etc. chegaram. Isso trouxe sérios prejuízos para algumas delas, em que se vê hoje baixíssima densidade acadêmica de nível internacional, mesmo nas melhores universidades brasileiras.

Isso para a pós-graduação. Mas, mesmo na graduação, o tema da educação e formação de caráter geral, que foi recorrente ao longo desses 3 dias, seria melhor servido se nossos estudantes das áreas de História, Geografia, Pedagogia, Economia, Sociologia etc. da graduação, pudessem também se beneficiar  de uma estadia de 6 meses ou mais numa universidade como Princeton, Yale, Berkeley, Stanford, Oxford, Cambridge, Sciences-Po, Munique, Roma, Milão, Barcelona, Amsterdam etc.

Mencionei isso ao Glaucius no final da sessão, vou voltar ao tema com ele, seria interessante que outras pessoas com visão semelhante – reitores, pró-reitores, docentes, insistissem nesse ponto. Sobre as outras mesas, volto num próximo post.

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Going Global 2012 – British Council, 2º dia

Além das apresentações, que têm sido muito interessantes, o evento busca reunir pessoas em torno de temas comuns. Ontem tivemos um almoço do Brasil, em que participantes brasileiros e do Reino Unido tiveram a chance de se encontrar, trocar informações, conversar sobre projetos de interesse comum.

Um dos temas tratados foi o programa Ciência sem Fronteiras do governo federal. Glaucius Oliva, president do CNPq, estava presente e fez um breve comentário sobre o programa e agradeceu ao British Council pela iniciativa.

Tive a oportunidade de conhecer pessoas de várias áreas, desde administradores acadêmicos a pesquisadores. Em particular, Colin Grant de Surrey, Mary Stiasny da Universidade de Londres, que demonstraram bastante interesse em relação à Unicamp. Além deles, representantes de Warwick e de Kingston também manifestaram muito interesse no Brasil e na Unicamp em particular.

Uma das sessões hoje tratou de colaboração e redes. Como sempre, o assunto de taxas escolares aparece, pois hoje, na maioria dos países, as universidades cobram taxas, sejam públicas ou privadas. Como no Brasil isso não ocorre, há sempre a questão de como se dá a contrapartida na troca de estudantes. Também foi levantada a questão da governança, já que a mudança de reitores leva, em geral, a uma guinada nas políticas de internacionalização, sendo uma área em que os modos tradicionais de controle acadêmico não são tão desenvolvidos. O tema educação geral apareceu novamente, numa seção sobre como educar  para o século 21.

A última sessão de hoje, de que participaram nossos conhecidos Philip Altbach (Boston College/IHE) e Francisco Marmolejo (U. Arizona), além do Ministro de C&T do Paquistão, tratou da questão de como instuições podem atingir a excelência acadêmica, num ambiente de crescente competição internacional. Phil foi bem claro: nenhum país tem condições de financiar um sistema em que todas as instituições seriam universidades voltadas para pesquisa. Foi ainda mais radical: países pequenos talvez só deveriam ter uma tal universidade, que seria sua face externa para o mundo acadêmico. Almejar ter um sistema em que a maioria das instituições teriam foco em pesquisa seria desastroso e provavelmente levaria, de fato, a não ter nenhuma com suficiente financiamento para fazer pesquisa em nível internacionalmente competitivo. Citou como exemplo o sistema da California, que tem três grupos de instituições, cerca de 150 no total, mas apenas 10 delas têm programas de doutorados acadêmicos, onde a docência é avaliada essencialmente pelo desempenho em pesquisa.

Marmolejo apresentou o caso do Instituto Tecnológico de Monterrei, no México, que tem buscado o nível de uma instituição de pesquisa. O ministro de C&T do Paquistão apresentou o esforço daquele país para desenvolver instituições de alto nível em pesquisa, com números muito interessantes. Enfatizou a necessidade de investir nos jovens que estudam fora, oferecendo uma bolsa inicial de 100 mil dólares para que voltem para o Paquistão e se estabeleçam lá.

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Going Global 2012 – British Council, 1º dia

Ontem começou, em Londres, o GG2012, evento sobre educação superior organizado anualmente pelo Conselho Britânico, com o tema “Changing Education for a Changing World”.  O evento ocorre no Centro de Conferências “Queen Elizabeth II”, que fica ao lado do parlamento britânico, com duração de três dias. O programa pode ser encontrado neste site. Mais de 1.400 participantes registrados, de um grande número de países, sendo 19 do Brasil, o maior grupo, de longe, de países da América Latina. Glaucius (CNPq), Simon Shwartzman, Melges (USP), Freire (Unesp) e representantes da Capes e de outras universidades brasileiras estão presentes.

Das duas palestras de abertura, gostaria de comentar a proferida por Homi Bhabha, director do Mahindra Humanities Centre de Harvard. Seu foco foi educação geral e seu papel na formação universitária. Em particular, da importânica que uma exposição aos temas das humanidades tem para todos os jovens que passam pelos bancos escolares das universidades.

Bhabha, trazendo sua experiência de crescer num país de baixo nível de industrialização (Índia), mais ainda quando era jovem (1960-70), enfatizou a importância de expor os jovens à grande diversidade de ideias, de perspectivas, que um mundo em transformação proporciona, onde existe a necessidade crescente de se estabelecerem pontes entre diferentes culturas, em diferentes níveis de desenvolvimento educacional, institucional, econômico.

A mensagem foi bem clara: sem proporcionar perspectivas que vão além das questões diretamente relacionadas às áreas especifícas da formação profissional, que estimulem o pensamento crítico e a criatividade, um sistema nacional de ES não terá chances de desenvolver a plena cidadania da população, nem particpar ativamente da integração e competição que está ocorrendo e continuará a ocorrer no plano internacional.

Como se diria aqui, “food for thought”! Mais amanhã, o segundo dia está começando.

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O Enade, o Sinaes e o caso da Unip

O atual noticiário sobre ensino superior reporta denúncia sobre a possível manipulação de resultados do Enade pela Unip (Universidade Paulista). Matéria no site da revista Ensino Superior Unicamp resume os pontos levantados em matérias do jornal O Estado de S. Paulo, indicando que a Unip poderia ter selecionado os estudantes que prestariam a prova em 2010, que incluiu as avaliações dos cursos da área de saúde, entre eles os de Medicina e de Odontologia.

O tema é muito relevante e, caso se verifique a denúncia, justifica as preocupações de especialistas com a validade do Sinaes (sistema de avaliação do ensino superior que utiliza os resultados do Enade) para seus fins declarados, incluindo seu uso como instrumento de credenciamento de cursos e de instituições de ES. A denúncia em questão levanta pontos sobre a credibilidade do sistema em relação ao sistema privado de ES. Mas há outros problemas: o boicote por parte dos estudantes afeta principalmente o sistema das instituições públicas.

Avaliação de sistemas, como poderia ser o caso do Sinaes, que trabalham em geral com amostras, não padecem desses problemas. Não há obrigação de participação nem de instituições nem de estudantes, instituições ou cursos não são avaliadas individualmente de forma compulsória.

Um exemplo interessante é o do Collegiate Learning Assessment (CLA), que vem sendo desenvolvido nos EUA desde o início da década passada. É um sistema voluntário, que avalia estudantes ao longo do curso de graduação em relação às habilidades básicas de compreensão e crítica, de leitura e escrita. Tem como objetivo auxiliar as instituições a aprimorar seus programas e currículos. Já teve mais de 500 instituições participando. Foi a fonte de um do estudos mais interessantes recentemente publicados sobre as deficiências na formação universitária americana (Academically Adrift).

O sucesso desse sistema levou a União Europeia a solictar à OCDE o desenvolvimento de um sistema de avaliação que usará o CLA como avaliação da formação geral, mas também terá uma parte que avaliará a formação específica, como ocorre no Enade: o Assessment of Higher Education Learning Outcomes (AHELO). Este sistema está em fase de testes, vem sendo desenvolvido desde 2009, no final de 2012 terá seu primeiro piloto completado. Esse é outro aspecto que o MEC e o Inep deveriam considerar, não só em relação ao Sinaes/Enade, mas em relação a todas as suas iniciativas de avaliação. É preciso tempo para desenvolver, testar e validar um sistema desses, antes que resultados sejam divulgados e utilizados publicamente. Infelizmente, a gestão anterior do MEC não seguiu essa metodologia de forma adequada, nem no caso do Enade, nem no caso do Enem. Estamos em boa hora de começar a fazê-lo.

Em tempo: nesta semana estarei numa mesa no evento Going Global 2012, do British Council, em Londres. O tema será avaliação do ES e suas relações com a empregabilidade dos graduados, com participação de responsáveis pelo piloto do sistema AHELO. Postarei comentários aqui.

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