Há inúmeras contradições na sociedade saudita, e um sistema universitário em formação, que mistura riqueza com uma sociedade ultra-conservadora, com fanatismo religioso, e com um grupo crescente de pessoas com pensamento progressista e excelente formação. Todos os ingredientes estão dados para um caldeirão complexo e imprevisível
Penúltimo dia
Após a conferência de Riad, segui para outra grande cidade da Arábia Saudita, Jedá. Na segunda feira, dia 23 de abril, fui convidado pela Suzana Nunes, ex-professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e atualmente professora na King Abdullah University of Science and Technology (KAUST), para essa interessante visita. A KAUST fica a 100 km de Jedá. Na realidade ela me convidou no dia anterior, assim pude também experimentar o hotel (Kaust Inn), e as impressionantes coisas que eles têm ali.

Jedá
Em termos gerais, trata-se de um enorme oásis científico no meio do deserto, onde o Rei Abdullah decidiu montar uma instituição de pesquisa de ponta, buscando atrair talentos científicos. Para construir o campus, aparentemente ele destinou uma verba de 10 bilhões de dólares, o que pode dar uma ideia das construções que existem ali.
Não há cursos de graduação, apenas pós-graduação, e a ideia é que eles consigam atrair os melhores estudantes e professores do mundo todo ali, atraídos pela possibilidade de ter verba e equipamentos que seriam muito difíceis de obter em outros lugares.
Além disso, ao juntar tantos talentos, espera-se que novos avanços multidisciplinares possam ocorrer. O campus começou a operar de fato apenas em 2009, e portanto ainda tem um número muito pequeno de estudantes formados. Os atuais – aproximadamente 800 estudantes – moram todos ali em muito boas residências. Todos os professores e funcionários também moram ali, e o lugar tem diferentes bairros, supermercado, posto, lojinhas etc.
Formou-se uma comunidade de em torno de 4.000 mil pessoas, que residem ali, dentro da Arábia Saudita, mas com regras próprias. Ali existe talvez o único cinema do Reino. Ali as mulheres podem andar sem abaya, e as classes são mistas, e podem ser ensinadas por homens ou mulheres. Parece bobagem, mas para a Arábia Saudita isso é um avanço impressionante (que não passou impune às criticas, naturalmente).
O choque já começou na minha chegada, quando no hotel, em lugar de um quarto na realidade eles me deram quase um apartamento, e com a geladeira abastecida! Tinha queijo, pão, manteiga, marmelada, sucos, água, entre outras coisas. Saí maravilhado para dar uma volta no centrinho, que está situado perto da mesquita principal. Tem ali lojas de conveniência, lojas de roupa, restaurantes, sorveteria, lojas de souvenirs etc.
Os prédios são bem agradáveis, e o local fica bem na beira do Mar Vermelho, o que proporciona uma vista toda especial. Há uma praia, e um barco, que toda semana oferece passeios, e aulas de mergulho, entre outras coisas. Criaram uma vila a partir do nada, e uma comunidade que precisa criar mecanismos de lazer para aguentar viver em um ambiente assim fechado.
Na manhã seguinte, além de algumas reuniões e conversa com a Susana, fui visitar o Core Lab, que tem como gerente, por pura coincidência, um velho amigo meu, Xixiang Zhang, com quem colaboro desde 1994. Foi um belo reencontro, e pude ver ali o que é possível fazer com muito dinheiro. O laboratório, que atende toda a Universidade, ocupa dois andares inteiros (deve ser algo em torno de 2.000 m²), onde foram gastos nada mais nada menos do que 140 milhões de dólares em equipamentos de pesquisa, isso sem contar com a câmara limpa, que custou outros 40 milhões.
Tem absolutamente de tudo o que se possa imaginar na área de pesquisa em química, física e propriedades de materiais. Vários microscópios, diversos tipos de espectroscopia, e tudo o que alguém da área de ciências de materiais sempre sonhou.
Na conversa posterior com os dirigentes dali, ficou claro que agora eles precisam atrair gente competente para ganhar massa crítica de pesquisa. O problema é consolidar um lugar que não tem a tradição e o atrativo de outros lugares (como EUA e Europa). Por enquanto eles estão apostando em bolsas mais atraentes em todos os níveis, bem como a possibilidade de um ambiente de trabalho único. Ronda ali a preocupação com o futuro, pois tudo na Arábia Saudita depende da vontade do rei, e o atual, bem progressista, está já com 88 anos. Tudo ali é um experimento, que nunca foi realizado anteriormente. Resta saber qual será o resultado. De qualquer modo, para quem está buscando algum lugar diferente para trabalhar, ou realizar a pós-graduação, sem dúvida é um lugar que deve ser considerado.
Último dia
Ainda em Jedá, fui visitar mais duas Universidades, desta vez privadas. A primeira delas, chamada Effat College, é uma experiência interessante de tentar introduzir o conceito de Liberal Art College, em uma sociedade tão estranha quanto a da Arábia Saudita. As estudantes têm ali um ano completo de educação geral e nivelamento, para aquelas que precisam reforçar principalmente o inglês, pois em ambas universidades o ensino é exclusivamente nesse idioma.
Em outro dia fui visitar o College of Business Administration (CBA), que tem um campus de homens e outro de mulheres. Para homens, eles têm engenharias, não disponíveis para mulheres, que se concentram nos cursos de administração, marketing e comunicação, entre outros. Ambas são universidades novas e ainda muito pequenas (menos de 1.500 estudantes cada), mas que aparentemente estão crescendo buscando um nicho diferenciado do mercado.
A ideia de universidade privada é nova na Arábia Saudita, elas existem há apenas doze anos. Além de todas serem em inglês, buscam atrair alunos que as famílias não querem viajando para realizar estudos no exterior, seja pela idade, pelo casamento, por motivos religiosos ou qualquer outro empecilho.
Em geral, famílias ricas tendem a mandar os filhos e filhas (desde que devidamente acompanhadas) à Europa ou EUA para fazer a universidade. Mas existe um mercado para os que não querem ou não podem sair. Em particular as mulheres têm que ir com alguém que as acompanhe (pai, irmão), o que nem sempre é possível. Além disso, o casamento ainda ocorre prematuramente ali, e as jovens com 16 ou 17 anos às vezes já se casam e logo têm filhos. Esse é o publico que essas universidades pretendem atingir.
Mas a sociedade ainda não está acostumada com Universidades privadas, porque aqui, nas universidades públicas todos os estudantes recebem uma bolsa (aproximadamente de R$ 500). Mas naturalmente as vagas são limitadas, e somente uma parcela muito pequena da população consegue entrar.
Não ficou claro se as universidades são com ou sem fins lucrativos. Eles afirmaram que não tem fins lucrativos, mas as duas instituições que visitei têm donos, que são conhecidos, o que me parece um contrassenso. É um setor que está claramente em franco desenvolvimento, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Há inúmeras contradições na sociedade saudita, e um sistema universitário em formação, que mistura riqueza com uma sociedade ultra-conservadora, com fanatismo religioso, e com um grupo crescente de pessoas com pensamento progressista e excelente formação. Todos os ingredientes estão dados para um caldeirão complexo e imprevisível.
